17/06/2017 - Atualizado em 17/06/2017 as 18h12

CHINA

Plano chinês já mexe com 40% da riqueza do mundo e prevê a quebra de barreiras econômicas que podem marcar uma nova era para a Ásia e colocar a China como liderança em globalização.

 


 
Xi Jinping durante Fórum da Rota da Seda em Yanqi Lake (Foto: Reuters/Lintao Zhang)Xi Jinping durante Fórum da Rota da Seda em Yanqi Lake (Foto: Reuters/Lintao Zhang)

Xi Jinping durante Fórum da Rota da Seda em Yanqi Lake (Foto: Reuters/Lintao Zhang)

Um acordo entre 68 países que reúnem uma população de 4,4 bilhões de pessoas e 40% da economia global. A nova Rota da Seda chinesa, inaugurada pelo governo do atual presidente Xi Jinping no mês passado, reforça a ânsia do país em ampliar sua posição como potência global e vem, aos poucos, captando a atenção de líderes ao redor do globo. Mas, o que é essa rota e o que ela significa para o mundo?

Formando um cinturão econômico, Pequim investe em países que, em troca, facilitam as negociações comerciais com a China. Construção e reforma de portos e aeroportos, incentivos fiscais relacionados à importação e exportação são algumas das estratégias que já vêm sendo implementadas. Segundo o governo chinês, desde que o programa foi anunciado, em 2013, foram investidos nele mais de US$ 1 trilhão.

 

Velha rota, novas estratégias

 

Há 2.000 anos, o governo imperial chinês de Zhang Qian estabeleceu a chamada Rota da Seda como forma de ligar economicamente a China com a Ásia central e o mundo árabe. O nome faz referência ao tecido que era o maior produto de exportação chinês à época. O intercâmbio econômico influenciou no desenvolvimento dos países que faziam parte do cinturão, mas se perdeu entre guerras.

Na nova versão da rota, no entanto, a seda deve ficar só no nome. O objetivo de Xi Jinping é levar e trazer produtos de todos os tipos, como matérias-primas e eletrônicos, ampliando o alcance e competitividade do produto chinês.

Além de derrubar fronteiras diplomáticas, implantando parcela dos trilhões de dólares da reserva internacional chinesa no projeto, Xi Jinping tenta cultivar uma vizinhança economicamente estável para, no futuro, estabelecer um bloco Euroasiático, dominado pela China, que possa competir com o bloco Transatlântico, dominado pelos EUA.

A rota atual, assim como a antiga, divide-se em marítima e terrestre. Em inglês, a iniciativa é conhecida como "One Belt, One Road", em que "Belt", de cinturão, refere-se à rota física e "Road", de estrada, refere-se à rota marítima.

 
 (Foto: Roberta Jaworski/G1) (Foto: Roberta Jaworski/G1)

(Foto: Roberta Jaworski/G1)

“A China quer exercer um eixo civilizador e econômico, aproveitando-se da queda do protagonismo norte-americano”, explica Fausto Godoy, embaixador e coordenador do núcleo de estudos e negócios asiáticos da ESPM.

Para Godoy, “a estratégia vai produzir um impacto extremamente positivo na economia chinesa e na Ásia”, marcando o início de uma nova era ao mercado asiático e transformando, principalmente, o foco da economia do país. “A tendência é que, para isso, a China terceirize a mão de obra barata, seguindo o modelo do Japão do século XX, dando um pulo de modelo industrial para pós-industrial”, disse.

Países agrícolas como o Brasil, segundo Godoy, vão passar a suprir a China com soja e matéria prima, principalmente ferro e aço, abrindo espaço para os chineses entrarem na era da pós-industrialização, com investimento massivo em empresas europeias, como já fizeram com compra de participações da Pirelli e da Volvo.

 

O que a China ganha?

 

Com a desaceleração de seu crescimento nos últimos anos, a China vem sentindo impacto de superprodução de aço, cimento e alumínio. Para lidar com o problema, o país cortou mais de 1,2 milhões de vagas de emprego entre 2016 e 2017. Em 2016, o PIB chinês cresceu 6,7%, o menor ritmo em 26 anos.

 

Para Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio Brasil e China, a Rota da Seda é uma forma dos chineses recuperarem a sua economia e, ao mesmo tempo, consolidar seu objetivo de se tornar uma potência global. “Enquanto a China faz investimentos, as empresas chinesas se beneficiam da abertura a um comércio global”, disse.

 
O presidente dos EUA Donald Trump e o presidente da China Xi Jinping caminham após uma reunião em Palm Beach, na Flórida, nos EUA (Foto: Carlos Barria/Reuters)O presidente dos EUA Donald Trump e o presidente da China Xi Jinping caminham após uma reunião em Palm Beach, na Flórida, nos EUA (Foto: Carlos Barria/Reuters)

O presidente dos EUA Donald Trump e o presidente da China Xi Jinping caminham após uma reunião em Palm Beach, na Flórida, nos EUA (Foto: Carlos Barria/Reuters)

 

Era Trump

 

Mas não se trata apenas de acordos econômicos. A ambição de Beijing ao lançar o projeto tem se transformado com as mudanças geopolíticas e o aumento do protecionismo norte-americano sob a nova "Era Trump". Assim que assumiu a presidência dos EUA, Donald Trump retirou Washington do Acordo de Associação Transpacífico (TPP) e, mais recentemente, anunciou a saída do Acordo de Paris.

Em contrapartida, o governo chinês ratificou o compromisso com o acordo. "Todos os signatários deveriam se manter no acordo ao invés de simplesmente abandoná-lo. Essa é uma responsabilidade que devemos assumir para as gerações futuras", disse Xi Jinping no Foro Econômico Mundial em Davos, na Suíça, no início do ano.

 

Bloco econômico

 

A iniciativa chinesa usa uma lógica parecida, mas difere de blocos econômicos como o Mercosul e a União Europeia. “Ela tem como intuito para promoção efetiva da integração a criação de uma infraestrutura e logística que integrasse as economias”, explica Evandro Menezes de Carvalho, professor da FGV Direito Rio.

 

A nova Rota da Seda já foi comparada com o Plano Marshall, iniciativa implantada pelo secretário de estado norte-americano em 1947, George Marshall, para ajudar na reconstrução dos países europeus afetados pela Segunda Guerra Mundial. A China recusa veementemente a analogia.

Enquanto o governo chinês prospecta novas parcerias, ainda é incerto os rumos da nova rota. Mas já se sabe que o impacto político e econômico vem rendendo frutos à imagem de Pequim. Confira a lista oficial dos países que fazem parte do acordo.

* Sob supervisão de Marina Gazzoni



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